Biografia Por - Dona Jacira (Mãe)

 

Quando ouvi o nome Evandro, eu disse em pensamento: “se eu tivesse um outro filho, ele haveria de se chamar assim”.

A Rosa tinha um filho com esse nome, e a cada vez que ela gritava o nome dele lá na rua 1, o grito fazia meu coração bater contente. Eu queria ter um Evandro entre os que eu já tinha.

Imagina eu chamando: “Evandroooooo”, e tu virias em meu chamado. E me responderia: “Mãe!”

Mas logo me recuperava, pois outro filho não me cabia. Eu tinha já três e um relacionamento falido. Eu carecia agora era de emprego fixo, casa, porque perdemos a nossa lá na rua 13 por brigas de Miguel. Fugimos.

Eu ousava sonhar mesmo assim.

No meio de tanta pobreza, me faltava alguém pra chamar Evandro. Era bonito.

Um nome é como um escudo, uma flecha certeira solta no ar, que sabe onde vai dar.

E tanto chamei em pensamento que vieste. Eu fiquei grávida.

Sou uma mulher, fui escolhida por zambi pra dar passagem aos seres que hão de vir, os de vir vêm através de mim.

Era um tempo nebuloso, cheio de dúvidas e mau agouro.

Morreu Abelardo Barbosa (Chacrinha)

Afundou navios.

E eu te esperava debaixo de fatos concretos de que não daríamos certo. Nem você nem seus irmãos e nem eu.

E quando me viam passar, diziam à boca pequena: “Coitada, deus tá castigando ela, num vai à igreja”.

Eu dizia pra mim entre uma pedrada e um refresco: “Acho que deus  acredita em mim. Filho nunca é castigo, é um caderno de reescrever a história do jeito da gente”.

Em casa, todo dia em que te esperei, mesmo contra todo mundo, me alegrava por dentro e dizia em pensamento: “Há de se chamar Evandro”.

E vieste, nasceu num sábado de manhã. Você, Leandro e Tiana nasceram num sábado de manhã. Kaki nasceu sexta de tarde, quase sábado.

Depois que você nasceu, todo o povo do mau agouro silenciou.

Pois que você venceu toda a tirania deles e nasceu.

E recebeu o nome. Evandro.

E que menino obediente, cheio de vontade, bondade, querendo aprender e servir.

Pois que os meninos nascem puros, com essência boa, e quem os desanda é a sociedade, os homens grandes, que se deixaram apequenar e querem criar meninos reféns de seus medos.

Sempre impôs respeito, e conforme ia crescendo, pensei até que não fosse meu.

Cheguei a pensar que não merecia tanto.

Pois se até as aulas que cabulou eu vim saber um dia desses.

Em cada lugar que você passou, todos queriam adotá-lo, inclusive aqueles que não queriam que nascesse.

As vizinhas: “Como é educado, não parece filho de Jacira”.

A família: “O Evandro puxou o lado bom da família”.

Os professores: ”Ai, que menino bom de criar, a senhora tá de parabéns, mãe, ele até parece… branco”.

Eu pensava: “Crio igualzinho aos outros, esse já veio assim, viu, ‘minino’ criado com muita carcaça, pé de frango, serralha”.

Depois criou exigência, manias.

Lembra: “Tá fora da validade, mãe”. “Vamos cedo pra num perder a hora”, e assim chegávamos muuuuito cedo na escola de samba, nas festas.

Lembra que acordava no meio da noite brigando com seres invisíveis?

E quantos sonhos visíveis e possíveis, aprendeu a rebocar paredes, matar caranguejo, trompete.

E como aprimorava e aprimora todos os sonhos, todos os dias.

Dia destes li teu horóscopo, que dizia que darias pra um sacristão, e eu não duvido.

Não estes de universidades, ranhentos puxa-saco da cúria. Não.

Estes de coração bom, feito um são beneditozinho, bonzinho, mas justo, que traz o coração cheio de amor até em cima pelas plantas, gentes e bichinhos.

E mesmo tendo falhas, tristezas e mau agouro, segue rente.

Foi por vocês que cresci, que enfrentei a vida, que deixei de querer morrer. Quando zambi me mandou vocês, foi pra entender o significado de cada um na Terra, era preciso que viessem.

Eu não teria sobrevivido sem vocês.

Lembra quando você queria socorrer todo mundo?

Este porque não tinha o da condução, a aquele faltava comida e a tantos faltava esta nobreza de caráter.

Lembra quando aquele galo branco da dona Zefa corria atrás de você, e eu brigava com ela? Você ficava triste .

E da neguinha, você lembra?

Deu a ela um colar do Corinthians.

E do Vladimir?

Lembro das lágrimas caindo pelo teu rosto de ‘minino’ enquanto cavava o buraquinho pra sepultá-lo quando ele se assustou com a neguinha e enfartou.

Ele era tão pequeno. Como você.

Depois de por flores pro Vladimir, chamou Neguinha e tomou dela o colar do Corinthians.

Disse a ela: “Você matou seu irmão, isso não se faz, não vai ser mais corinthiana”. Como se fosse possível deixar de ser corinthiana.

E quando ela morreu, mais uma vez te rolou o pranto, e sofreu, sofreu.

Ô, ‘minino’ que sabe sofrer doído.

Tive medo de sua opinião, pronta.

Lembra quando disse no Sesi que eu era médica, e eu disse: “Eu sou auxiliar de enfermagem”.

Aí você respondeu: “Eu já te promovi. Se você cuida de doente, é a mesma coisa”.

E aquela nota B que tirou e por três dias atanazou sua prô e eu até ela deixar você fazer a prova de novo.

E quando peitou a Silvia no Sesi porque ela segurou toda a sala por causa do perfurocortante, dizendo a ela: “Minha mãe disse que sou criança, não posso andar com perfurocortante”.

Era eu abusando da palavra.

Foi ela que me disse que você foi à sala dela e falou que ela devia desculpas pra sala toda.

Você já nasceu grande.

Eu soube que seu professor de música não lhe dava atenção e o discriminava, e você nunca me falou.

Tapou a boca dele quando tirou som do trompete.

Ja nasceste grande, rapaz.

Towmani koiate, um dijeli lá de Burkina Faso, que corre o mundo contando histórias reais de África, me ensinou que tem crianças que nascem com 7 anos de conhecimento na frente das outras.

São crianças à frente de seu tempo.

Na verdade, somos presente um do outro, e vê-lo dando certo, seguindo seu caminho e trazendo tantos com você, me dá mesmo é muito orgulho.

Nessas horas eu penso: “O que pode a hipocrisia quando o plano de zambi está traçado e une sabedoria com serviço?”.

Se naquele tempo eu não tivesse tido medo poderíamos ter vivido melhor, eu teria sofrido menos e vocês também.

Mas a intuição sempre me disse que todos vocês dariam certo.

E eu sou agradecida.

Te amo.

 

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Marina Santa Clara Yakabe

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